E o “fardo do homem branco” continua?

Por Luís Viviani

Atualmente, qualquer notícia que lemos sobre a África diz respeito a problemas diversos, sendo alguns desses a fome, a miséria, as guerras internas e os problemas de saúde. Para exemplificar tal questão, temos o link a seguir que trata das batalhas existentes na Líbia, com o Governo da Líbia rejeitando a ordem de prisão contra Muammar Kadhafi. Essa é uma notícia atual, porém ela possui em sua essência elementos que a transformam em uma notícia quase que repetitiva, com temas existentes nos últimos anos sobre a África e que poderá servir de exemplo para outras notícias futuras também.
Isto é, fica claro para qualquer um que tenha lido qualquer notícia sobre a África que se trata de uma falta de organização sócio-política, grosso modo, existente nos africanos, isto é, eles sempre sendo representados como incapazes de sozinhos conquistarem paz e equilíbrio na região. Além disso, os textos e as notícias sobre África sempre fazem referência à necessidade de não-africanos, como a ONU ou então outras entidades européias ou norte-americanas de “arrumar” e de “ajeitar” a região. A pergunta que tais notícias devem trazer é: estariam novamente os brancos “civilizados” com a obrigação de intervir (isso se, em algum tempo, eles deixaram de interferir) na África?

Isso soa um pouco estranho, mas o buraco é mais embaixo. Uma das principais razões da África possuir sérios problemas atualmente é justamente a interferência provocada pelos próprios brancos que hoje se dizem os únicos que podem “salvar” aquela região. Para esclarecer melhor é de fundamental importância que todos tenham noção de que no século XIX houve a existência do mito do “fardo do homem branco” descrito pelo poeta do imperialismo Rudyard Kipling (1865-1936), em seu poema “The White man´s burden”, no qual ele destaca o dever da ação colonizadora inglesa, que serviu para justificar a colonização de diversas regiões da África, transformando a região num mosaico de povos étnicos, misturando-os sem regra alguma. Os territórios foram abrangidos por este ou por aquele império colonial, sem nenhuma atenção às condições naturais do continente, às diferenças étnicas e às tradições de sua população.

Assim, com a independência dos países africanos, os novos Estados surgidos no continente foram o fruto da presença dos colonizadores na África. Contrariamente ao que se verifica em outras partes do globo, especialmente na Europa, em que os Estados puderam se definir após longo processo de elaboração, as novas unidades políticas da África surgiram de repente, dentro de quadros elaborados a partir de estímulos estranhos ao continente e dentro de perspectivas que não incluíam a criação de novos Estados soberanos. Daí não ser difícil entender que os novos Estados africanos tenham surgido com uma vestimenta que, em grande parte, é de responsabilidade da vontade e dos interesses europeus.

Mas isso é mostrado de uma forma até convincente no ensino médio, com questões para o vestibular abordando tais características, e, consequentemente, a maioria dos estudantes sabe disso. Porém o buraco é ainda mais embaixo, pois a interferência européia e dos homens brancos é mais antiga e ainda permanece viva no continente africano. Como um pequeno exemplo, tivemos a Guerra Fria e com ela a existência da disputa do interesse de algumas nações africanas pelos blocos socialistas e capitalistas. Além disso, os temas são sempre tratados como se não existissem interesses por parte dos próprios africanos, como se estes fossem apenas fantoches de sua própria história, ou seja, ignoram profundamente os africanos em geral e quando acontece alguma coisa no continente é por causa de influências externas a ele, o que resulta novamente no problema da interferência externa à África, seja para provar a causa de um problema ou então para “solucionar” tal problema.
Os problemas na África são, sim, fortes e intensos. Entretanto, problema maior ainda é a concepção de que sempre temos que interferir (quase nunca de um modo positivo) naquela região para, então, “arrumar” o continente. A respeito disso deixamos aqui dois links para brotar dentro de cada um uma opinião sobre essa questão um tanto o quanto perturbadora e complexa:

Interferências externas prejudicam desenvolvimento de África

Angola adverte sobre perigo da interferência externa para a soberania

Responses

  1. Entrei em angola press e fiquei algum tempo lendo as noticias de africa e de angola – ótima dica e link


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