Quem mora na África é… ?

Por Luisa Tasima

É preciso ter cuidado com o recorrente uso de um só termo que fala sobre uma grande quantidade de aspectos. Isso é o que acontece quando utilizamos a palavra “África”. Esse único termo dá margem a diversas interpretações, mas nem sempre positivas e verdadeiras. Da mesma forma que a palavra “África” é citada como uma identidade geográfica comum entre vários povos, esse termo também atribui uma generalização de aspectos relacionados ao continente; é o que acontece principalmente quando falamos sobre as populações que habitam a África. Essa generalização chega a ser tão grande que não é incomum vermos a África ser confundida com um país, tamanha a homogeneização vista da população desse continente. A imagem que nos vem à mente é a de um povo uniforme, com os mesmos costumes precários e ultrapassados, falando o mesmo dialeto estranho, com as mesmas tradições e a mesma religião. A realidade é bem diferente desta: não existe um único povo no continente africano.

A África se parece com um mosaico de povos distintos que compõe um mesmo território. Existem, por exemplo, os nagôs e os malês, que habitam a região centro ocidental da África; um pouco mais ao sul temos os congos e os angolas; já na região bem mais sul do continente temos os moçambiques e os benguelas; mais ao norte, próximo do deserto do Saara e da chamada costa do ouro habitam os povos jejes e minas. Dentre esses povos, os que foram levados como escravos para o Brasil, portanto mais ricos em informações à seu respeito, foram os jejes, os nagôs e os malês. Estes não podem ser classificados igualmente, como se fossem todos idênticos em seu modo de vida. Uma das diferenças entre eles seria a religião: os jejes cultuam o vodu, os nagôs praticam o culto aos seus orixás e os malês são praticantes do islamismo. As diferenças entre esses povos ainda estão marcadas pelas diversificadas regiões geográficas ocupadas por cada um desses povos, já que vimos a respeito dos ambientes diferenciados que a África possui em seu extenso continente: congos e angolas estão na região tropical, jejes e minas habitam regiões mais próximas ao deserto, moçambiques estão em uma região de clima mais ameno relacionado ao restante do continente. Estes são os povos africanos mais lembrados quando falamos sobre a vinda deles para o Brasil, porém o povo que veio em maior quantidade para cá foram os bantos. Essa população habita a região noroeste, perto da atual Nigéria, local muito popular durante o tráfico de escravos devido a grande concentração de ouro, chegando a ser chamada de costa do ouro. Os bantos seriam povos que viviam da agricultura e da pesca e teriam desenvolvido a metalurgia, viviam em aldeias com um chefe e falavam a língua kimbundo.

Assim podemos ver algumas das diferenças presentes entre estes povos africanos. As diferenças aparecem desde aspectos visíveis como fisionomias e trajes, como em outros mais infiltrados como as diferenças culturais, as línguas, os costumes, a religião etc. A principal questão é entender que quando falamos em “povos africanos” não estamos nos referindo a uma população homogênea, mas sim nos referimos as diferentes comunidades que compartilham do mesmo continente.

Essa diversidade de povos dentro de um mesmo espaço tanto é real que até se configura em um quadro delicado com relação à convivência desses povos. Na corrida pela conquista de regiões da África, os países europeus partilharam o continente sem considerar as antigas separações já existentes entre as populações que habitavam aquelas regiões. O resultado dessa partilha seria mais ou menos a aparência do mapa político da África hoje, o problema é que essas delimitações de território misturaram diversos povos diferentes, obrigando-os a conviver em um mesmo local e a se relacionar. Antes da chegada dos europeus já havia brigas e conflitos entre alguns povos e os europeus não se preocuparam com as diferenças deles, julgando-os como uma massa que não precisava dessa preocupação social. A consequência da intervenção europeia na África foi a junção de nações inimigas e a separação de nações amigas, que levaria a uma enorme quantidade de conflitos que se estendem até os dias de hoje. O erro foi simples: desconsiderar as divergências entre os povos africanos. Para aqueles que ainda não acreditam na diferenciação das populações africanas temos, portanto, a pior de todas as provas, que seria a presença dessas diferenças nos conflitos africanos que conhecemos, como, por exemplo, entre os tutsis e os hutus em Ruanda e entre muçulmanos e cristãos no Sudão. Os motivos que levaram a esses conflitos vêm do colonialismo europeu do século XIX e comprovam que os habitantes da África não são um povo único.

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